Quis brincar com o perigo. Mesmo após o alerta, insisti em me embriagar com a beleza, e me vi atraído pelo nome da Pandora. Não devia usar esse nome àtoa, parecia-me um risco, uma tentação; teria tido eu todas as misérias do mundo, se a possuísse? Não, não. Nada de mais grave teria acontecido, pois já tivera toda a miséria do mundo, todo o prazer bastardo - talvez aquele sobre o qual falou Brás Cubas em seu delírio -, todas as dores dos dentes de leite removidos - algum dia talvez explicarei os
dentes -; e talvez ela, ou seu nome, fosse apenas uma condensação de tudo o que experimentei naquele lugar, e um indício de que sobraria, depois que tudo acabasse, restaria Ela, aquela que não morre, e se esconde no fundo da caixa daquela mulher. Ainda assim, ainda que cético quanto a um possível risco, não quis Pandora; me arrisquei sim em dois sorrisos: o primeiro, negro e falso, porque assustado - e porque casada -; e o segundo, sincero e branco, porque embriagado.
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