Um delicado e sedento, e irresistivelmente sensual anjo negro, fôra minha celebração da liberdade; um passo essencial, e delicioso, e inestimável - oh sim, inestimável, não sabem o quanto tal palavra é adequada aqui -, rumo à verdadeira liberdade. Não precisei de uma dose sequer de álcool - nem de outras coisas menos dignas que o álcool - pra me embriagar com sua presença brasil, com seu perfume, com seu convite sedutor. Pela primeira vez não medi meus atos, e pela primeira vez tive uma mulher dignamente entregue em meus braços, em meus lábios, e em todos os sabores, todas as sensações que poderíamos experimentar publicamente - e talvez mais até do que poderíamos, levando em consideração a desagradável censura que recebemos de um leão-de-guarda, de um homem-de-preto, como se estivéssemos fazendo algo proibido. Jamais experimentara uma dança verdadeiramente gostosa como a que tivemos, mesmo ao som de músicas que ou por completo desconhecia ou apenas mal as conhecia. Jamais também experimentara o prazer de provocar com minha mão, com meu braço, um belo corpo vestido, como se por vezes menosprezasse que houvesse, ali entre as peles, belos trajes cuidadosamente escolhidos por uma
dark angel - ou
dark devil. Igualmente novas eram as incontáveis sensações experimentadas dentro - e fora - de nossas bocas: que lábios deliciosos, que língua ousada tinha minha prazerosa amiga. Diversas vezes a deixei alerta, quando ela percebia que seu corpo chegava a um ponto sem retorno, e ela temia passar desse ponto: meus dedos, delicados como o toque de zéfiro, causavam reações maravilhosas em seu corpo.
As lembranças ficaram assim esparramadas, sem ordem, sem história, por que estou assim agora, sem ordem, e por que apenas quero explicar o que me trouxe a liberdade. Por que a lembrança da minha venusiana amiga não me permite um sono decente, e por que quero passar do ponto em que não há mais retorno - como defendeu Kafka, que se há pontos na vida dos quais não se pode retornar, estes devem ser o objetivo. Quero mais de seu delicado tronco, de sua maravilhosa e jovial cintura, de seus braços, de suas mãos, de seu pescoço, seu rosto e boca, quero desvendar todos os volumes maravilhosos sob suas vestes, e chegar a uma transe, a uma sublimação, como nunca antes tivera.
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